Amantes da nudez,
detestam roupas e livram-se delas assim que possível.
No limiar do ritual com a brincadeira,
todo aquele pano vai ao chão,
ou se pendura pelos móveis.
Peles diferentes,
o branco e o moreno na mais perfeita sintonia,
o arrepio simultâneo,
pêlos que se eriçam,
marcas, vergões, hematomas,
registro de dentes pelas pernas,
braços, pescoço, coxas,
rastro de água,
pele do rosto encharcada,
olhos abertos, rendidos,
bocas que não se calam,
corpos distantes,
palavras que se entrelaçam no ar,
máscaras que se penduram,
ao lado de cuecas
um sutiã na mesa ao lado.
Amantes da nudez
e amantes nus.
Quando não há mais o que ser tirado,
aí sim
peles grudadas,
suor, gozo,
arrepio,
tudo brilha,
tudo passa a fazer sentido.
terça-feira, 8 de maio de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
O homem.
Estranho homem
que passa com um sorriso enorme no rosto.
De longe avisto a intenção de dizer algo,
proferir palavras a ilustres desconhecidos
que com ele cruzem caminho
num fim de tarde
em meio às árvores.
A aproximação é inevitável,
há quilômetros já imagino o que diria,
talvez pedisse um abraço,
talvez falasse do céu,
ou apenas nos olhasse
e se mantivesse sorrindo.
O encontro se dá,
"bom feriado", ele diz,
ainda todos os dentes à mostra,
numa alegria tão genuína
que quase chegava a dar medo.
Sequer temos tempo de responder,
seguimos aos risos da situação,
uma última olhada pra trás,
parece que ele não olhou e seguiu
dando seus "bom feriado" a outros passantes.
Desacostumados à simpatia,
continuamos conversando sobre como seres humanos parecem ser felizes
sem de fato o serem.
Pensando agora, talvez aquele homem fosse feliz.
Ou talvez fosse tão triste e filho da puta como todo mundo,
e só tivesse sorrido
ao nos ver vindo em sua direção
no fim de tarde de segunda,
parecendo assim
tão estranhamente
e humanamente
felizes.
parecendo assim
tão estranhamente
e humanamente
felizes.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Continua.
Sinto o vento apenas numa metade minha,
e o sono se desvanecendo devagar
enquanto alguém fala ao meu lado,
recém-acordada,
ainda não entendo muito bem o que é dito,
mas tudo soa tão bonito,
continua falando, por favor,
estou gostando de ouvir sua voz.
O sol ainda está nascendo,
e eu finalmente estou desperta,
quantas cores estão lá fora
e que nos invadem aqui dentro,
bota uma música,
vamos deitar de frente pra janela,
continua me abraçando, por favor,
estou gostando de sentir você respirar.
Está na hora de sair e ver as cores de perto,
lava o rosto, ou melhor, toma um banho rápido,
ainda quero um beijo antes de abrir a porta,
e estou começando a ter fome,
então vamos, estamos prontos,
o domingo está lindo nos esperando.
Mas continua me olhando, por favor,
estou gostando de ver você feliz.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Eu e minhas circunstâncias.
Poderia ter demorado
mais cinco minutos.
Poderia morar a 30 quilômetros daqui,
Poderia ter nascido em outro lugar
Poderia estar pelos Jardins
Poderia estar embaixo da ponte,
Poderia várias coisas, mas não fiz,
não quis, não pude ou não fui.
E como conseqüência disso tudo,
E não me arrependo.
Poderia ter virado para
o outro lado,
ter ido pela rua de
baixo,
parado numa padaria pra
tomar um café.
Poderia morar a 30 quilômetros daqui,
ter o cabelo loiro e
1,80 de altura,
usar saia e ouvir U2.
Poderia ter nascido em outro lugar
falar uma língua
qualquer que não
o trôpego e complexo
português.
Poderia estar pelos Jardins
ansiando por um sorvete
de gorgonzola
enquanto desfilaria com
saltos que torneiam minhas pernas.
Poderia estar embaixo da ponte,
tendo mais quilos de
ossos
do que moedas no meu
bolso
me arrastando em troca
de água limpa.
Poderia várias coisas, mas não fiz,
não quis, não pude ou não fui.
Cheguei na hora em que
achei que deveria chegar,
fui para o lado que
quis, pela rua que quis,
deixei pra tomar café
em casa.
E como conseqüência disso tudo,
Estava ali, naquele
lugar, naquele momento, meio sonolenta,
deitada e enrolada num edredom branco.
E não me arrependo.
Não me arrependo.
sábado, 7 de abril de 2012
O mundo.
Um mundo inteiro está à minha frente,
e de tão pleno
me vejo tomada.
Em silêncio, olhos vidrados,
contemplo aquilo que se faz visível
sinto o ar se esvair completamente de meus pulmões,
Por um segundo,
estava ali morta,
inerte, acabada,
incapaz de reagir
tamanho o êxtase.
Lágrimas insistem em querer sair,
ao final, acabo permitindo que tudo aconteça,
o choro, o soluço,
o riso desenfreado, desesperado,
desmedido e destemido.
Eu tenho um mundo inteiro à minha frente,
e dele vou viver cada instante,
não abro mão de um segundo sequer.
Eu e o mundo,
o mundo e eu,
o tempo e o espaço,
o suspiro,
e o abraço.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Leio Neruda numa tarde de sábado,
atropelando palavras, esquecendo pronúncias,
risos e lágrimas se alternando
na mais sublime das vivências possíveis.
Uma tia morta colabora
na montagem de um cenário perfeito,
e o resto, ficam por conta do acaso e da vontade,
e de toques estratégicos,
nem que seja apenas num fio de cabelo desalinhado,
tentando colocá-lo no lugar.
O sol se põe,
a noite chega,
a luz do poste ilumina um pé,
a luz do computador ilumina todo o resto,
quatro páginas de palavras pedindo pra serem relidas,
organizadas, editadas, publicadas,
recitadas ao pé do ouvido,
vividas mais uma vez,
como foram numa noite de torpor,
que terminou com All Stars vermelhos jogados na sala.
O tempo continua passando,
e aos olhos, vão caindo o melhor dos sonos,
o sono de quem já foi tão feliz
que precisa descansar pra continuar sendo.
O barulho ao longe, é hora de acordar,
hora de dar o último aperto no abraço,
hora de começar a contar os segundos de novo,
hora de voltar à vida prática,
e soltar um suspiro desconsolado
de quem não queria ir embora,
e um suspiro aliviado,
de quem lembra que isso não acabou.
atropelando palavras, esquecendo pronúncias,
risos e lágrimas se alternando
na mais sublime das vivências possíveis.
Uma tia morta colabora
na montagem de um cenário perfeito,
e o resto, ficam por conta do acaso e da vontade,
e de toques estratégicos,
nem que seja apenas num fio de cabelo desalinhado,
tentando colocá-lo no lugar.
O sol se põe,
a noite chega,
a luz do poste ilumina um pé,
a luz do computador ilumina todo o resto,
quatro páginas de palavras pedindo pra serem relidas,
organizadas, editadas, publicadas,
recitadas ao pé do ouvido,
vividas mais uma vez,
como foram numa noite de torpor,
que terminou com All Stars vermelhos jogados na sala.
O tempo continua passando,
e aos olhos, vão caindo o melhor dos sonos,
o sono de quem já foi tão feliz
que precisa descansar pra continuar sendo.
O barulho ao longe, é hora de acordar,
hora de dar o último aperto no abraço,
hora de começar a contar os segundos de novo,
hora de voltar à vida prática,
e soltar um suspiro desconsolado
de quem não queria ir embora,
e um suspiro aliviado,
de quem lembra que isso não acabou.
domingo, 1 de abril de 2012
Sonetos de amor, Pablo Neruda.
XXVII
Nua és tão simples como uma de suas mãos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua és magra como o trigo nu.
Nua és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no pêlo,
nua és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.
Nua és pequena como uma de tuas unhas,
curva sutil, rosada até que nasça o dia
e te metes no subterrâneo do mundo
como num longo túnel de trajes e trabalhos:
tua claridade se apaga, se veste, se desfolha,
e outra vez volta a ser uma mão nua.
XXXIX
Mas esqueci que tuas mãos satisfaziam
as raízes, regando rosas emaranhadas,
até que floresceram tuas digitais pisadas
na plenária paz da natureza.
O enxadão e a água como animais teus
te acompanham, mordendo e lambendo a terra,
e é assim como, trabalhando, desprender
fecundidade, fogoso viço dos cravos.
Amor e honra de abelhas peço pra tuas mãos
que na terra confundem sua estirpe transparente,
e até em meu coração abrem sua agricultura,
de tal modo que sou como pedra queimada
que de súbito, contigo, canta, porque recebe
a água dos bosques por tua voz conduzida.
Nua és tão simples como uma de suas mãos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua és magra como o trigo nu.
Nua és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no pêlo,
nua és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.
Nua és pequena como uma de tuas unhas,
curva sutil, rosada até que nasça o dia
e te metes no subterrâneo do mundo
como num longo túnel de trajes e trabalhos:
tua claridade se apaga, se veste, se desfolha,
e outra vez volta a ser uma mão nua.
XXXIX
Mas esqueci que tuas mãos satisfaziam
as raízes, regando rosas emaranhadas,
até que floresceram tuas digitais pisadas
na plenária paz da natureza.
O enxadão e a água como animais teus
te acompanham, mordendo e lambendo a terra,
e é assim como, trabalhando, desprender
fecundidade, fogoso viço dos cravos.
Amor e honra de abelhas peço pra tuas mãos
que na terra confundem sua estirpe transparente,
e até em meu coração abrem sua agricultura,
de tal modo que sou como pedra queimada
que de súbito, contigo, canta, porque recebe
a água dos bosques por tua voz conduzida.
Assinar:
Postagens (Atom)