quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Olhos não sabem esconder verdadeiras intenções.

Estavam ali como vinham estando há um tempo,
distância suficiente pra que ainda haja concentração,
sem que o cheiro se perca no meio do caminho.
Apesar da euforia iminente, o que se percebe é uma calma
típica de quem entende que às vezes
a própria tensão anterior ao instante alimenta ao espírito
tanto quanto o instante em si.

O sinal de todos os dias:
Uma tremedeira na perna.
Não há mais nada que os impeça
e eu, olhando da janela da frente,
bem percebo que na verdade, nunca houve nada que pudesse impedi-los.

Roupas que somem do corpo de forma lenta e gradual,
como se estivessem por descobrir o inédito,
E ali ficam por horas,
unidos pelos braços, unidos pelas pernas,
unidos pelo suor e unidos por pura vontade.
Sem se preocupar com quem os veja,
por que, na verdade, até então ninguém os havia visto,
e sem desconfiar de mim,
se entregam àquela nudez delicada, descabelada,
e acima de tudo, cúmplice.

Tento ler os lábios deles, entender o que tanto conversam e riem,
e então percebo que não estão falando um idioma que eu entenda.
Ali vejo o encontro de dois daimons,
vejo-os chegar ao orgasmo aos berros,
vejo-os devorando um ao outro como se o sol não fosse nascer de novo,
penso que talvez possam estar certos.

Continuam conversando,
sabe-se lá que diabos falam,
mas sabe-se que não perdem tempo,
pois pra eles, o tempo não se mede.

Volto ao meu quarto e escrevo sobre o que vi,
Ciente de que talvez nem tenha visto nada.
Dois daimons eram meus vizinhos da frente,
e morrerei sem saber se apenas tomei remédios demais,
ou se estou a meio caminho do Olimpo.

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